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PERDIDO NUM OLHAR PERDIDO, por Daniele Pereira e Nilson Rutizat

A primeira vez que eu a vi, ela estava presa num olhar. Foi para mim uma surpresa muito grande ver aquela moça em meio a uma roda de conversa parecer que nada à sua volta importava, salvo o mundo refletido em seus olhos. Encanto, foi o que senti assim que a vi, mas ao fita-la por um momento, percebi que na verdade ela estava precisando de ajuda. Aquela menina estava viajando por mundos que ela mesma não conhecia, e ela, inocente, não sabia que as leis do mundo real não se aplicavam àqueles mundos. O que fazer então para salvá-la?  Propus-me a observá-la... e entender a conexão entre seus mundos tornou-se meu doce vício, qual seria a sua linha tênue? Ela era uma incógnita. Uma conta matemática que precisava de muita atenção e dedicação para chegar a uma possível resolução. Eu a espreitava de tal forma que comecei a entender o seu ar de mistério e os motivos que a faziam evadir-se e viver o doce escapismo que a fuga constante lhe representava. E aos poucos... nossas mentes s...

ISSO NÃO PODE PIORAR!

O universo nunca entende quando a gente diz que a coisa está tão ruim que não pode piorar. Não só entende como recebe essa frase como um desafio. É como se a gente estivesse duvidando da capacidade do cosmo em produzir situações absurdas. Saem tantas coisas absurdas após você proferi essa frase que você se arrepende de ter dito.  Eu queria muito ser especifico nesse texto, mas tenho medo do universo senti como desafio, isso seria intragável, já que as últimas situações são surreais e eu não me perdoaria se surgissem novos absurdos proveniente de minhas palavras. Vamos então tratar desse assunto de forma genérica. Não! Vamos encerrar esse texto e fingir que nada aconteceu. Já pensou se as pessoas ficam sabendo que o mundo é tão absurdo e surdo ao mesmo tempo? Seria um caos. Ou se descobrisse que no ego o cego se ver melhor? Nem quero imaginar no que poderia acontecer. É melhor mesmo fingir que as pessoas não são mesquinhas e baixas, que têm comportamentos totalmente con...

EU TAMBÉM JÁ FUI MENINO

F onte da imagem: https://estudandocomchicoxavier.files.wordpress.com/2012/07/82-menino.jpg Ei, menino, sabia que eu também já fui menino? Não tão popular assim como você, também não era bonitinho. Sim, eu fui menino. Mas um daqueles gordinhos, cabeçudos, desengonçados que não sabia jogar bola, nem dançar, nem cantar muito menos sabia me enturmar com os meninos comuns. Eu não era como todos, disso eu sabia. E acabava que depois da aula, todos os dias, eu não ia brincar como os outros meninos faziam. No quarto eu me trancava e ia ler histórias. Ali eu me sentia bem, pois podia viver todas as aventuras sem que alguém me apelidasse, sem que alguém gritasse que eu era feio e estranho.  Mas, menino, eu queria mesmo era estar na rua brincando, sendo criança, assim como você está fazendo. Não era que eu não gostasse de ler, eu adorava. Mas é que me faltava viver de verdade a minha infância. Desculpa, menino, está falando essas coisas para você. Dentre todos os meninos que ...

NOTA

O bom de ser adolescente, é que se ver com muito mais intensidade tudo. O amor é mais intenso, assim como a traição ou a falta de alguém para amar. Na adolescência tudo está a flor da pele, e os adultos, fingindo nunca terem sido adolescentes, reclamam o tempo todo dessa maneira de ser dos jovens. E a maldita frase "no meu tempo não era assim" é dita como uma oração por pais, e outros adultos que não querem se ver refletidos nessa nova geração. 

O CACHORRINHO TRÊS OLHOS

Naquela noite de chuva, ninguém conseguia dormir. A cachorra latia o tempo todo. Incomodava de tal modo que seu dono teve que sair na chuva para ver o que estava acontecendo. A cadela estava dando cria, o mais curioso é que nasceu apenas um cachorrinho. Muito estranho! O dono da cachorra não acreditou no que via e saiu com a lanterna na chuva para conferir se havia mais filhotes. Nada. Nenhum! O único cachorro que nasceu, era mofino e tinha no meio da testa uma pinta que parecia um terceiro olho. A cachorra não quis amamentar seu filhote e o dono do animal teve que criá-lo na mamadeira. Apesar do que dizia as circunstâncias - mofino, enjeitado - o cachorrinho se criou e tornou-se um enorme cão.  Mas não era bom de "caça" e por isso se transformou num arrependimento para seu dono. Dia após dia o homem reclamava - esse cachorro, nunca pegou nenhum bicho - e lamentava tê-lo criado, afirmando que perdera seu tempo e que o melhor a se fazer era abandonar o cão em algu...

OS DOIS LADOS DE UM OLHAR

Não era uma distância longa entre um olhar e outro. Mas longe o bastante para que os olhares se deturbassem, uma distância suficiente para que fosse agregado ao olhar certa subjetividade e interpretação um tanto ousadas. E foi isso que aconteceu.  Dia após dia os olhares se encontravam, abraçavam-se, mas nada diziam. Talvez porque não achassem que ali estaria se criando visões de algo, de alguma coisa. E em linha reta, a conversa continuava. Não em palavras, mas na subjetividade dos olhares. Não é preciso dizer nada para que fosse percebido que ali por meio dos olhos a comunicação se fazia. E seus interlocutores sempre certos de que estavam sendo compreendidos. Será?  Talvez sim, talvez não. Os olhos não são muito claros, vejam o trocadilho, quando se trata de sentimentos. Alerta de espolie. Sim, um sentimento nascia por meio daqueles olhares. Pelo menos da parte do dono de um dos pares de olhos. De uma pequena semente por trás daqueles olhos nascia um sentimento...

NA MADRUGADA

O silêncio da madrugada é tão assustador. Mas também libertador. Nesse momento ninguém me diz o que eu devo ser e nem como devo agir. Sinto-me livre, totalmente livre das normas sociais que me colocam em uma caixinha o dia todo. Agora não, posso estar como quiser, fazer o que eu bem entender. Até meus pensamentos e imaginação sinto que estão mais livres nessa hora da madrugada.  Não é que eu seja contra todas as normas de convivência, mas também não me apego muito a elas, até entendo que são importantes, no entanto, essas normas são amarras em minha vida. Meus pensamentos precisam de liberdade, eu preciso de liberdade. Para mim, é tão estranho ter que fazer alguma coisa apenas porque alguém me disse que fizesse.  E esse diz e faz me sufoca muito. Queria ter a liberdade de pensar. Gostaria que me deixassem errar. E daí se é certo? Deixe-me errar, tentar outro caminho. Não tenho medo do fracasso e muito menos do desconhecido. Tampouco tenho medo da madrugada. ...